Conecte-se

Sociedade

#QUESTÃO INDÍGENA

Por trás da foto

Quando conheci Bruno Pereira, assassinado há um ano, para fazer esta foto foi como ter a certeza de estar diante de alguém imprescindível para este mundo

Daniel Marenco, da Headline | Brasília
#QUESTÃO INDÍGENA4 de jun. de 233 min de leitura
Retrato de Bruno Pereira, servidor da Funai exonerado em 4 de outubro de 2019, no primeiro ano do governo do então presidente Jair Bolsonaro, feito em Brasília, em 09 de outubro de 2019. Foto: Daniel Marenco/HDLN
Daniel Marenco, da Headline | Brasília4 de jun. de 233 min de leitura

Quando o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips desapareceram, o presidente brasileiro à época, comentou que o trabalho sério de investigação e reportagem que faziam na região do Vale do Javari, na segunda maior terra indígena do Brasil, no extremo-oeste da Amazônia, era uma "aventura não recomendada". Bruno e Dom foram assassinados e seus corpos encontrados dias após o desaparecimento.

Bruno Pereira era um dos indigenistas mais experientes da Funai. Foi coordenador regional do órgão em Atalaia do Norte por cinco anos. Foi também por quase três anos coordenador-geral de índios isolados e recém contatados do órgão. Foi exonerado em outubro de 2019. Quando o fotografei, Bruno já estava afastado de suas funções. Aliás, qual era o interesse daquele governo em manter gente tão qualificada na proteção de indígenas?

Lembro do dia, da entrevista e de seu misto de tristeza e revolta. Aliás, quem não estaria em se separar do que lhe dá sentido na vida? Mas também teve muita doçura. Bruno topou me encontrar no local onde sugeri a foto, topou também conversar em um café depois dela.

Teve generosidade em me passar dicas, conhecimento e contatos sobre o assunto do qual tanto entendia. Eu tinha recém voltado da matéria sobre garimpo ilegal em Terra Indígena Ianomâmi, para denunciar o boom de garimpeiros na região, estimulada por quem se vangloriava de carregar no carro uma bateia. Confessei o medo que ainda sentia, mesmo já estando de volta em Brasília, depois da ameaça de morte que sofri quando a matéria foi publicada.

Falei pra ele das fotos dos cadáveres e das imagens de armas que vi no celular de quem as tinha feito. Esta região estava (talvez ainda esteja) tomada por gente assim. Gente que, na certeza da impunidade avalizada por um homem que nunca deveria ter os encorajado, destrói culturas, florestas, ceifa vidas, famílias, futuro. Fotografar Bruno naquele dia, longe do que mais gostava de fazer, era como o presságio de um pesadelo. Infelizmente, o pior aconteceu. As promessas de ataques foram cumpridas e o crime ocorreu.

Hoje, um ano se completa da ausência desses dois defensores da vida e da floresta. Ambas dependentes uma da outra. Hoje, vivemos sob outro governo, com promessas de mais respeito aos povos originários e a seus territórios, mas não livre de novos ataques. As ameaças não acabam.

Os que não entendem a necessidade de manutenção da floresta em pé para o bem viver do planeta a achacam com algumas tentativas: marco temporal e o fim das demarcações, agronegócio irresponsável, impunidade aos criminosos e invasores de terras já demarcadas. Muito há ainda a se fazer e pessoas como Bruno e Dom fazem falta. Que as suas histórias não sejam esquecidas e suas lutas possam ser seguidas. E, principalmente, nunca, mas nunca mais, nos aventuremos de forma não recomendada na hora de eleger alguém que não leve em conta os direitos desses povos e seus defensores. Os danos são sérios e incalculáveis.

Meu carinho e minha solidariedade nesta hora aos familiares do Bruno e do Dom.

*Daniel Marenco é jornalista por formação, mas sempre trabalhou como fotógrafo pelas redações onde passou. Hoje ele é editor visual da Headline.

#QUESTÃO INDÍGENA
MEIO AMBIENTE
BRUNO PEREIRA
DOM PHILLIPS
AMAZÔNIA