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REPORTAGENS VISUAIS

REPORTAGENS VISUAIS#POLÍTICA

"Tchau, querida!"

Daniel Marenco | Brasília

Em um 1º de janeiro de 2011, pela primeira vez uma mulher – uma ex-guerrilheira da luta armada – chegou ao cargo máximo do poder no Brasil. Uma audácia que não passaria impune, alvo de olhares desconfiados de quem estava acostumado a decidir tudo

31 de ago. de 165 min de leitura
31 de ago. de 165 min de leitura

Desta vez, bastaram poucos minutos após o anúncio do resultado de sua reeleição, para Dilma Rousseff ser vaiada na Avenida Paulista por um grupo de partidários do candidato derrotado nas urnas, o tucano mineiro, Aécio Neves. Eles não imaginavam o desfecho dessa história. Petistas que, no mesmo instante, comemoravam o terceiro mandato do Partido dos Trabalhadores, do outro lado da rua, tampouco. Seu antecessor e mentor, um ex-torneiro mecânico, que havia se dirigido ao Congresso Nacional para seu primeiro discurso como presidente da República, em 2003, idem.

Já na posse, enquanto a presidenta garantiu continuar combatendo a corrupção, opositores convocaram protestos e pediram a cassação da chapa Dilma - Temer, que a reelegeu. Ali estava eleito presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Iniciou prometendo independência ao governo, mas uma sequência de denúncias de corrupção, que começou a derrubar políticos envolvidos em negociatas de propina de empresários e empreiteiros, ficou acuado. Na Petrobras, um escândalo afastou Maria das Graças Foster, amiga pessoal da presidenta. Muitos outros foram citados nas investigações e, inflamados, manifestantes saíram as ruas contra tudo e contra todos, exigindo o fim da corrupção.

Iniciaram a chegada dos pedidos de impedimento da presidenta. De todos os lados e setores da sociedade. Integrantes do Movimento Brasil Livre, os mesmos que hoje dão sustentabilidade à este obscurantismo que rege a nação, protocolaram na Câmara o seu. As prisões por escândalos políticos continuavam. Ícones do partido da presidenta foram presos em uma das maiores operações de investigação do país, a Lava-Jato, comandada por um juiz que agora sabido parcial pela Corte máxima do país, tinha seus interesses pessoais e políticos. A crise se intensificou, o Tribunal de Contas decidiu analisar as tais "pedaladas fiscais". Cunha já rompido com o governo, denunciado pelo procurador-geral da República por envolvimento no esquema da Petrobras, foi arrastado para o escândalo. O Brasil entrou em recessão técnica, e a popularidade do governo caiu para índices nunca vistos. O PIB tombou, a CPMF ressurgiu, e o TSE reabriu ação proposta por Aécio e seu PSDB.

Em outubro daquele ano, um novo pedido de impeachment, entregue por parlamentares da oposição, parou de novo nas mãos de Cunha, que viraria réu no Conselho de Ética da Casa que presidia menos de quinze dias depois, por omitir contas bancárias na Suíça. O então senador Delcídio Amaral preso e jogou mais gasolina na fogueira e incendiou ainda mais o cenário político. O PT não cedeu à pressão do presidente do legislativo e votou pela continuidade do processo contra o presidente da Casa. Cunha no mesmo dia autorizou a abertura de um dos tantos processos de impedimento recebido. Não bastasse, o vice-presidente de República escreve uma carta à Dilma, vazada por meio da imprensa, em que expunha a relação entre os dois. Ou a falta dela. Acabou ficando conhecido por uma expressão que ele mesmo escrevera: um "vice-decorativo"

As manifestações explodiram, já sem rumo. A imprensa abraçou os ideais da luta contra corrupção, pagasse o preço que tinha de pagar, e mais manchetes e capas alarmantes eram publicadas dentro do país, com posições mais cautelosas fora dele. "Bessias" viajou a São Paulo com um termo de posse. Em meio ao agravamento da crise, Lula foi nomeado ministro. Foi impedido minutos depois por decisão judicial. De forma ilegal – e política -, vazaram conversas telefônicas da presidenta, outros grampos idem, entre eles, o discurso da posse prematura do vice. Se seguiram novas prisões e delações. Nesse ponto, já se somavam 12 pedidos de impedimento contra a presidenta.

Em homenagens à família, à Deus, à torturadores ou acusando o presidente da Casa de corrupto, o processo passou na Câmara e foi encaminhado ao Senado. Eduardo Cunha que já cumprira seu papel, foi afastado, para, mais tarde, ser condenado e preso. O Senado seguiu o rito e decidiu pelo afastamento de Dilma Rousseff, a primeira mulher nesse cargo no Brasil, por até 180 dias. Assumiu provisoriamente o "decorativo" Temer que, em seu primeiro dia após o aviso da troca de comando, deu posse a um ministério formado somente por homens. Todos brancos. Foi a volta do poder ao senhorio das Casas Grandes. 

Em 31 do oito de 2016, Dilma Rousseff, até então a primeira mulher nesse cargo, assumido para um primeiro mandato eletivo, deixa de ser Presidenta do Brasil. Foram 61 votos de senadores a favor e 20 contra o impedimento. Ela não perdeu o direito de exercer qualquer função pública.

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