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REPORTAGENS VISUAIS

REPORTAGENS VISUAIS#COPA DO MUNDO

Tão perto, tão longe

Daniel Marenco | Rio de Janeiro

Teve Copa. As obras foram superfaturadas, estádios e aeroportos não ficaram prontos e a população saiu às ruas em protestos exigindo investimentos em saúde e educação. Mas teve Copa. 

13 de jul. de 146 min de leitura
13 de jul. de 146 min de leitura

O "não vai ter Copa" não vingou porque o futebol está enraizado na história do Brasil. Porque basta uma bola por perto que qualquer criança, por instinto, já sabe chutar. Qualquer terreno, de grama ou chão batido, pode ser o maior campo de futebol do mundo. Seja no Maracanã – palco da final desta Copa do Mundo – ou em alguma das muitas favelas que cercam o Rio de Janeiro, povoadas com crianças que sonham em, um dia, viver desse esporte, o futebol alimenta paixões e sobrevive no país até nos momentos de maior descrença.

Lá no alto do morro, na favela da Mangueira, Genival da Silva Batista, o Babau apressou os preparativos do aumento do barraco. Preparou a caixaria para bater mais uma laje pouco tempo antes da estreia do palco principal da Copa no Brasil. Foi tarefa para contar com a ajuda dos amigos. Os mesmos que dali terão visão privilegiada para o reformado Maracanã. O estádio, que já foi palco da Copa das Confederações, recebeu outros preparativos em seu entorno, passarela para estacionamento e outras exigências da entidade máxima do futebol, a Fifa. A obra de Babau também não ficou pronta, mas ele já tinha tudo acertado para uma TV inglesa bancar tripé ali e abusar dos clichês favela, samba e futebol no dia da grande final. 

O irmão de Babau, que ajuda no bar, um boteco de vitrine refrigerada farta de guaravita e quase nenhum movimento, estava preocupado era com a reforma da quadra da comunidade. Na Candelária, localidade da Mangueira onde moram, o campo de recreação das crianças passava pela instalação da grama sintética pela Prefeitura, mas ao contrário do ritmo afobado em toque de caixa das obras da Copa, lá nada acontecia. Com outras crianças, Cauã, o sobrinho de Babau, se divertia então na laje do vizinho, sem bola e com pipa. Era a vida na favela ganhando contorno de improvisos tipicamente abrasileirados.

Na Maré, no campo do Pati, na favela Nova Holanda, há mais de dez anos é assim: o professor Serginho comanda a criançada correndo pra todos os lados na escolinha de futebol três vezes por semana, em dois turnos. Mas seu trabalho remunerado é outro, à noite. Mas gaba-se com a crença de estar evitando que as crianças, ali dentro com o esporte, se misturem ao movimento do outro lado da tela. Enquanto o frenesi no campo é atrás de uma bola doada, o lado de fora retrata o já conhecido pique-pega entre militares e varejistas das comunidades ocupadas no Rio. O complexo de favelas da Maré durante este período contou com a ocupação militar do exército brasileiro. Entre a avenida Brasil e a Linha Vermelha o complexo é caminho para o Aeroporto Internacional Tom Jobim. Fora das telas, a tensão movimentada de espios nas esquinas de becos e vielas nada se compara à pelada da molecada. Com as crianças, joga Geraldo. Destaca-se delas não pelo tamanho bem maior ou por ter mais idade, nem por precisar de carinho especial, mas por se movimentar diferentemente dos demais. 

Lembra um beque da Seleção na Copa da Itália, em 90. Alguém que, mais tarde, jogando no Vasco, falou que zagueiro não precisava correr, tinha mesmo era de conhecer os atalhos. Mauro Geraldo Galvão talvez tenha parado antes de o quase xará se interessar em jogar futebol, mas o estilo bem pode ser comparado: Geraldo não corre, se posiciona. Geraldo não se afoba, tem seu ritmo, não erra passe e não grita. Mas chuta forte. Quando vai bater o tiro de meta todos sabem que precisam correr para o outro lado do meio-campo. E quando alguém sem querer bate canela com ele, Geraldo faz cara de choro e clama o professor. 

Serginho para a pelada e marca falta, antes da cobrança exige um aperto de mão e um abraço entre as duas crianças. Do lado de fora, o exemplo de paz parece não ser visto nem pelos tantas falhas dos arames. Duas motos com militares se aproximam. Como um Garrincha ou Messi, os do lado de fora se livram da marcação e desaparecem. Mas em seguida, não é o som comemorativo de foguetes que é ouvido. Serginho reúne todos, recolhe os coletes e diz não querer ninguém mais por ali. Todos vão para casa. Pelo menos naquela sexta-feira não vai mais ter futebol em algum lugar da cidade da final da Copa.

Em outro canto, quem sentado no chão espera sua vez de entrar na altinha fala com o amigo, do mais novo convocado da seleção de Felipão. Os moleques gostaram da matéria que viram dias antes na TV. Bernard, que ficou um ano e meio sem treinar por ser assim como eles, bem franzino, acabou virando esperança. Ali, no campo de terra que empoeira o ar e tem a quantidade exata de pedregulhos para pisar bem com o meio do calcanhar sobre uma delas, a bola é remendada e tem calo, os pés são descalços mas a alegria deles é igual à das pernas do craque. Nem o encardume das roupas ou a camada de pó sobre suas peles negras, tira deles a felicidade de festejar o gol. 

Assim como os aeroportos que não ficaram prontos ou as estradas que não darão acessibilidade alguma, a favela depois de ocupada também espera por outras melhorias. Não há saneamento, a luz ainda mia, a saúde padece, mas teve Copa. Nas sexta-feiras da favela do Zinco, no complexo do São Carlos, continua a se comemorar. Chegou mais um fim de semana de trabalho. Homens e mulheres se reúnem e ao som de Fundo de Quintal e sob goles de cerveja deixam os filhos correrem soltos. É hora da diversão da família de todos que moram ali. E é isso que esperavam nesta época, ter alegria num feriado em dia de jogo.

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