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REPORTAGENS VISUAIS#PANDEMIA

Muito mais que uma gripezinha

Daniel Marenco | São Leopoldo e Porto Alegre (RS)

O Brasil ultrapassou a triste marca de 650 mil mortes (número em 30/03/2022) por COVID-19 desde o início da pandemia. A propagação do vírus, auxiliada por uma variante altamente contagiosa, brigas políticas e desconfiança na ciência, levou o país a uma grave crise nos hospitais que inclui falta de tanques de oxigênio e medicamentos para cuidar dos pacientes em estado mais grave.

30 de mar. de 224 min de leitura
30 de mar. de 224 min de leitura

A situação do Sistema de Saúde agora à beira de um colapso total é um fracasso para um país que, nas últimas décadas, foi um modelo para outras nações em desenvolvimento, com uma reputação de desenvolver soluções ágeis e criativas para crises médicas e oferecer atendimento médico integral para mais de 150 milhões de brasileiros.

Epidemiologistas afirmam que o Brasil poderia ter evitado o agravamento desta situação se o governo tivesse promovido o uso de máscaras e o distanciamento social e negociado agressivamente o acesso às vacinas em desenvolvimento no ano passado. Em vez disso, o presidente Bolsonaro, que chamou a Covid-19 de "gripezinha", muitas vezes encorajou grandes multidões e promoveu drogas ineficazes e potencialmente perigosas para tratar a doença - como medicamentos antimalária e antiparasitários - contradizendo as advertências de ineficácia das principais autoridades de saúde.

No ano passado, o governo de Bolsonaro rejeitou a oferta de dezenas de milhões de doses de vacina Covid-19 da farmacêutica Oxford. Mais tarde, chegou a comemorar contratempos nos testes clínicos da CoronaVac, a vacina chinesa da qual o Brasil passou a depender em grande parte. Além disso, zombava ao declarar que as empresas farmacêuticas não seriam responsabilizadas se pessoas que recebessem vacinas recém-desenvolvidas se transformassem em jacarés.

Essas teorias de conspiração sobre as vacinas se espalharam amplamente nas redes sociais. Uma recente pesquisa de opinião pública descobriu que 46% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma destas Fake News amplamente divulgada sobre vacinas.

Em Porto Alegre, cidade próspera no sul do Brasil, pacientes começaram a chegar aos hospitais bem mais doentes e mais jovens do que antes. As casas funerárias vêem um movimento como nunca antes visto, enquanto médicos e enfermeiras exaustos imploram por um lockdown para salvar vidas. O Rio Grande do Sul agora émo centro de um colapso impressionante do sistema de saúde do país.

Após mais de um ano de pandemia, as mortes no Brasil estão no auge e variantes altamente contagiosas do coronavírus estão varrendo o país, possibilitadas por disfunções políticas, complacência generalizada e teorias da conspiração. O país, cujo líder, o presidente Jair Bolsonaro, minimizou a ameaça do vírus, agora está relatando mais casos novos e mortes por dia do que qualquer outro país do mundo.

Desabafo

Eu fotografei algumas UTIs no Rio Grande do Sul, quando Porto Alegre ameaçava ser uma nova Manaus. Em duas ocasiões entrei na UTI-Covid do Hospital Centenário, em São Leopoldo, cidade onde fui criado. De volta ao Estado depois de alguns anos morando fora dele e trabalhando em outras redações, estava eu de novo encarando o drama dos meus. Lembro bem que nesta manhã do primeiro dia e na tarde do segundo quando regressei, tomar um único cuidado extra além de toda preocupação em não se contaminar. Eu não lia os nomes dos acamados. Não desejava de jeito nenhum ver o nome de algum conhecido ali entubado lutando pela vida. E a chance era enorme. São Leopoldo não é uma São Paulo. E eu passei 30 anos da vida vivendo ali. Se o medo do vírus me deixava em quase pânico, cuidava também para não me contaminar emocionalmente com aquele drama. Foi em vão. Fiz o que tinha de ser feito, mas carrego este trauma. Na época, em redes sociais, fiz um desabafo:

"Queria saber escrever bem sobre o que vi. Mas não tenho talento pra isto. Por isso escrevo sobre o que senti. Só queria que entendessem sobre o pânico que vi. Havia algum tempo que ver algo não me paralisava. Aquele engasgo difícil de engolir. A desesperança no rosto dos cansados. A morte pairando ali. Uma luta longa de mais de um ano. De luta contra uma pandemia, contra um negacionismo, contra uma indiferença, uma falta de empatia, uma desumanidade.

O que vi é a ponta final antes do derradeiro. E é muito ruim chegar na pontinha do fim.

Queria saber escrever tudo que senti, também não consigo. Acho que agora só queria que vocês respeitassem a dor dos outros. O cansaço dos outros. A vida dos outros. Usem máscara! Fiquem em casa! Não morram e também não matem! E nunca mais votem em quem não acredita na ciência. A vida de todo mundo vale nada quando vocês fazem isso! Que Obaluaê nos cure!"

*Esta reportagem foi realizada em 30/03/2022, quando o Brasil contava com 650 mil mortos pela covid-19.

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JAIR BOLSONARO