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IDEIAS EM IMAGENS

IDEIAS EM IMAGENS#ELEIÇÕES 2022

Democracia acima de tudo

Daniel Marenco | São Paulo

“A imagem não pode ser neutra. O poder do olhar deve influenciar as pessoas, porque o ato de fotografar tem que ser político, e não um mero acaso do instantâneo”

12 de out. de 225 min de leitura
12 de out. de 225 min de leitura

Quem pôde apreciar as fotografias da exposição "No verbo do silêncio a síntese do grito", de um dos expoentes da fotografia nacional, Walter Firmo, deparava-se com a frase escrita acima. Quando decidi por escrever este texto, junto de um ensaio fotográfico de um evento que participei, o fiz por uma escolha. Escolhas acontecem também na fotografia. Elas devem se negar à neutralidade. Por isto, trago este brevíssimo ensaio de quem, depois de algum tempo, voltou a repensar o que mostrar e como mostrar. Diz sobre mim, mas também diz sobre a importância das imagens para a Headline e para o período em que vivemos neste país.

Headline está oficialmente no ar. Após alguns meses de últimos ajustes, fizemos nossa festa de lançamento e vencemos a versão beta. Headline foi lançada. E esse lançamento me trouxe de novo à São Paulo, cidade que me tirou dos meus rincões, no iniciozinho da minha carreira como fotógrafo. E não antes, mas justamente nessa festa de apresentação que a certeza de estar fazendo parte de algo muito maior aconteceu. Por um simples fato: às vezes, o estar tão envolvido no processo de construção nos faz perder a visão do todo.

O jornalista, sociólogo e professor Sérgio Abranches, em seu discurso no dia do lançamento, conseguiu dimensionar o que estávamos por criar. Ele que viveu o período mais duro do país, da censura imposta durante a ditadura, reforçou a importância do jornalismo, ainda mais o independente, para a democracia. Eu lembro de estar do lado do Moreno Osório, nosso editor de newsletters, quando cochichei: estamos em algo muito importante. No fundo talvez soubéssemos, mas quando ouvimos de estranhos é que a ficha cai.

Ontem, participamos de um evento político em um hotel na cidade. Foi a primeira vez que voltei a fotografar depois de tanto tempo. E a câmera na mão faz mesmo circular uma adrenalina diferente, não tem jeito. Algo como se fosse sempre a primeira vez, aquele frio na espinha. Só que ali, naquela sala, algo estava diferente. Eu, como jornalista de imagem de algumas tantas redações, já participei de alguns processos eleitorais, a maioria deles com embates políticos entre vertentes distantes, até conflituosas. Foi assim com Lula e Alckmin, Dilma e Serra, Dilma e Aécio, sem falar nas disputas estaduais e municipais.

Outros tempos, óbvio. Neles, as maiores agressões de campanha se resumiam a arremesso de bolinha de papel. Mas o que vi ali, ainda não tinha visto. Essa eleição tão acirrada, de um país que se vê tão polarizado, inflamado e de certa forma agressivo, por algo muito maior, os distantes compactuavam. Ex-adversários se abraçavam e, preocupados, sorriam. Sabiam que algo maior está em jogo.

Marina Silva, recém-eleita deputada federal, em uma fala emocionante fez uma observação muito importante sobre o atual momento. "Só posso é agradecer a oportunidade, porque só em uma democracia, uma ex-seringueira que vem de um regime de semiescravidão pode estar aqui para dizer que também pode contribuir. Só em uma democracia, um operário pode ser aquele que reúne agora as melhores condições para derrotar o Bolsonaro e o bolsonarismo. O Bolsonaro que aprenda que só em uma democracia pode ser eleito, porque em uma ditadura quem ganha é o general e nós não queremos um país de ditadores. Nós queremos um país de oportunidade, inclusive de oportunidades na política e isso é a democracia que faz", disse a deputada.

O discurso de Marina devia servir de alerta ao capitão e fazê-lo abandonar as tentativas de ataques ao processo que o elegeu.

Aqui não busco marcar uma posição partidária, longe disso. Mas busco sim marcar posição. Como jornalista, tenho interesse direto nisso. E como integrante da Headline e com todos os valores sagrados neste projeto, mais ainda. Headline é uma news plataform. Agregaremos variadas iniciativas do que há de melhor do jornalismo independente sendo produzido no Brasil. Não há possibilidade de concordar com ataques xenofóbicos, quando buscamos discursos e vozes que furem a bolha sudestina de informação. Muito menos ouvirmos calados discursos que inferiorizem gênero ou raça. Que não dá mesmo para concordar com a política ambiental que arrasa nossos biomas quando estão entre os nossos parceiros que cobrirão meio ambiente. Ou quando se deparamos com uma enxurrada de fakenews, não se indignar sendo jornalistas e tendo entre nós colegas empenhados em checagem de fatos. Não abriremos nossa capacidade de se insubordinar ao abominável, assim como não deixaremos de ser empenhados com a verdade e independentes, o Brasil precisa de ambos. O jornalismo é muito maior. Headline vem para ser maior. É a defesa da nossa liberdade. Do Jornalismo. Até porque, eu e meus colegas não pretendemos perder o direito de termos o direito de escrever e criar imagens como fazemos. Nós da Headline temos um slogan que não abrimos mão: democracia acima de tudo!

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