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Chile lança plano de busca de mais de mil presos desaparecidos na ditadura

Da AFP, com curadoria de Daniel Marenco | Santiago, Chile

Para esclarecer uma das principais dúvidas da Justiça, 50 anos após o golpe militar liderado por Augusto Pinochet, o Estado chileno irá assumir, pela primeira vez, a busca de 1.162 presos desaparecidos durante a ditadura, anunciou o presidente Gabriel Boric.

2 de set. de 235 min de leitura
2 de set. de 235 min de leitura

Durante décadas, a busca dos desaparecidos ficou a cargo quase exclusivamente das famílias, que encontraram os restos mortais de apenas 307 pessoas. "Este número deve doer e fazer nosso sangue queimar, porque dá conta da magnitude da dívida que temos, como Estado e como sociedade", disse Boric ao lançar o Plano Nacional de Busca da Verdade e da Justiça, primeira iniciativa oficial desse tipo e uma de suas principais promessas de governo.

Boric assinou o decreto que oficializa o plano durante cerimônia nos arredores do palácio presidencial de La Moneda, da qual participaram ministros e parentes das vítimas, mas não as forças opositoras de direita.

A dias de se cumprirem cinco décadas do golpe de Estado que derrubou o governo do socialista Salvador Allende e estabeleceu os 17 anos da ditadura de Pinochet, governismo e oposição se mostram divididos sobre como abordar esse aniversário.

Demora da Justiça

Com financiamento estatal, o plano de busca tem como objetivo reconstituir a trajetória das vítimas após a sua prisão e o seu desaparecimento. Também busca garantir o acesso à informação dos familiares e implementar medidas de reparação.

A busca será, agora, um dever permanente do Estado, e não apenas das famílias, disse Boric, emocionado, reconhecendo que "a Justiça demorou muito".

Pessoas observam o Memorial dos Detidos e Desaparecidos no Cemitério Geral de Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Martin Bernetti/AFP
Pessoas observam o Memorial dos Detidos e Desaparecidos no Cemitério Geral de Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Martin Bernetti/AFP

Familiares das vítimas participaram da elaboração do plano. Depois de anos denunciando o abandono do Estado, eles agradeceram ao governo Boric por seus esforços.

"Nenhum outro governo teve essa vontade política que era necessária para que este calvário não seja apenas dos familiares, mas de toda a sociedade e do Estado, que fez nossos familiares desaparecerem", disse, durante a cerimônia, Gaby Rivera, presidente do Grupo de Familiares de Presos Desaparecidos.

A maioria dos desaparecidos eram operários e camponeses, com idade média de 29 anos. As prisões começaram logo após o levante militar, em 11 de setembro de 1973.

Até agora, o principal obstáculo para encontrar os desaparecidos tem sido a pouca colaboração das Forças Armadas, o que os familiares atribuem a um "pacto de silêncio" que se mantém desde a ditadura (1973-1990).

Em uma mesa de diálogo instalada no fim dos anos 1990, os militares aportaram dados de cerca de 200 presos, cujos corpos, asseguraram, haviam sido lançados no mar. No entanto, alguns desses restos mortais foram encontrados em valas comuns.

Entre os compromissos assinados nessa instância, esteve a nomeação de juízes especiais para casos de violação dos direitos humanos ocorridos durante a ditadura. As pistas obtidas a partir desses processos judiciais são a base da informação que o plano de busca anunciado hoje pretende sintetizar.

O ministro da Justiça, Luis Cordero, afirmou hoje que "é evidente que há pessoas que têm informações sobre o destino dos desaparecidos" dentro das Forças Armadas.

Em 1990, com o retorno da democracia, foi criada a Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, que reconheceu as mais de 3.200 vítimas, incluindo mortos e desaparecidos, deixadas pela ditadura. Em 2003, foi aberta outra Comissão oficial sobre prisão política e tortura, que reconheceu cerca de 38 mil torturados.

*Com fotos de Martin Bernetti/AFP, Javier Torres/AFP

Imagens de detidos desaparecidos são projetadas na fachada do Palácio de la Moneda, em Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Javier Torres/AFP
Imagens de detidos desaparecidos são projetadas na fachada do Palácio de la Moneda, em Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Javier Torres/AFP
Emilia Vasquez Riquelme, 87 anos, posa com uma foto de seu filho Miguel Heredia Vasquez, detido e desaparecido em 26 de dezembro de 1973, em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Emilia Vasquez Riquelme, 87 anos, posa com uma foto de seu filho Miguel Heredia Vasquez, detido e desaparecido em 26 de dezembro de 1973, em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Elsa Esquivel Rojas, 83 anos, mãe de Luis Nahuida Esquivel, desaparecido em 20 de novembro de 1974, posa com uma imagem de seu filho em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Elsa Esquivel Rojas, 83 anos, mãe de Luis Nahuida Esquivel, desaparecido em 20 de novembro de 1974, posa com uma imagem de seu filho em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Alejandro Heredia posa com a foto de seu irmão Miguel Heredia Vasquez detido e desaparecido em 26 de dezembro de 1973, em sua casa em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Alejandro Heredia posa com a foto de seu irmão Miguel Heredia Vasquez detido e desaparecido em 26 de dezembro de 1973, em sua casa em Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Fotos de detidos desaparecidos são vistas nos jardins do Palácio de La Moneda, em Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Martin Bernetti/AFP
Vista do Memorial aos Detidos e Desaparecidos no Cemitério Geral de Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Vista dos túmulos do setor denominado “Pátio 29”, tombado Monumento Histórico em 2006, que serviu durante a ditadura militar para enterrar clandestinamente políticos executados, no Cemitério Geral de Santiago. Foto: Martin Bernetti/AFP
Estudantes da Universidade do Chile realizam um protesto pacífico com fotos de pessoas desaparecidas para marcar o Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, em Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Martin Bernetti/AFP
Luz Encina Silva, 94 anos, mãe de Mauricio Jorquera, então com 19 anos, se prepara para jogar rosas ao mar. Foto: Javier Torres/AFP
A frase “Ainda estamos procurando” projetada na fachada do Palácio de La Moneda, em Santiago, em 30 de agosto de 2023. Foto: Javier Torres/AFP
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